Empresas de recuperação de crédito: quem são e o que fazem

Em tempos de crise, ninguém escapa, nem mesmo os “grandes”, por muito grandes que sejam. Estes problemas não dizem respeito à possibilidade de encerramento destas, que também pode acontecer, mas principalmente no que concerne às dificuldades que estas atravessam para conseguirem recuperar o crédito concedido a clientes, que deixaram de ter capacidade de liquidar as dívidas. E, com o crédito malparado a atingir cerca 1.9 mil milhões de euros em Janeiro, no sector do crédito pessoal, e mais de 4.88 mil milhões de euros nas empresas, as entidades credoras estão cada vez mais a optar por uma solução para reverem os valores concedidos: as companhias de recuperação de crédito.

As empresas que se dedicam à cobrança difícil terão mesmo duplicado o número de clientes nos últimos cinco anos, por uma simples razão, o facto de apresentarem taxas de sucesso na ordem dos 80 por cento. Mas não só, algumas deixam igualmente conselhos práticos para a eventual recuperação dos restante 20 por cento, garantindo assim percentagens de êxito ainda mais elevadas.

Actualmente, em Portugal, existem 28 instituições inscritas e apoiadas pela Associação Portuguesa de Empresas de Gestão de Recuperação de Créditos (APERC), que adiantou recentemente ter crescido o negócio desta área, com a maior fatia de novos clientes a abranger essencialmente os bancos, em especial aqueles que têm no crédito a sua maior fatia de mercado. Expressando o dito por números, as associadas da APERC têm mais de cinco mil clientes e gerem cerca de um milhão de casos, correspondentes a um passivo que ultrapassa os 500 mil milhões de euros por cobrar. Só em 2008, foram recuperados cerca de 420 mil milhões de euros pelas entidades associadas da APERC, num total de mais de 980 mil casos resolvidos.

O crescimento de pedidos às entidades de recuperação de crédito é facilmente explicado pelo elevado endividamento dos portugueses, mas também pelas condições demasiado abrangentes que as empresas têm praticando nos últimos anos, neste tipo de financiamentos. Baseado essencialmente em juros que representam um bom retorno, o crédito é uma óptima forma de obter um lucro considerável, que acaba por tornar-se fundo perdido em tempos aperto económico, como o que se vive actualmente. É igualmente nestas alturas que aumentam os pedidos ao crédito, e logo, deve ser também esta a altura de criar regras de atribuição mais rígidas, que as entidades de concessão de crédito começaram a adoptar tarde demais. Por este último motivo, o montante que procuram reaver é agora significativamente elevado, o que explica o recurso cada vez maior, por parte dos credores, a empresas para recuperarem os fundos atribuídos ao longo dos últimos anos.

Embora existam possivelmente centenas de pessoas a efectuarem as chamadas cobranças difíceis, a grande maioria fá-lo ilegalmente e sem respeitar um código de conduta ou sequer as disposições legais, utilizando mesmo, em vários casos, a “força bruta”. Este não é, no entanto, o caso das empresas de recuperação de crédito associadas da APERC, as quais são permanentemente fiscalizadas e cumprem o código de actuação a que se veicularam desde o momento em que incorporaram as listas de entidades daquela associação. É, de resto, neste campo da ausência de legislação, que a APERC se tem debatido mais, procurando fazer com que seja finalmente regulado este sector, criminalizando as formas ilícitas de actuação nesta área. Até lá, muitas pessoas e “empresas” continuarão a fazer cobranças difíceis clandestinamente e sem qualquer regulação.

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